terça-feira, 12 de abril de 2011

Os primeiros autarcas republicanos...(portal da estrela)

Apontamentos da República na freguesia de Vide
Os primeiros autarcas republicanos que ficaram para a história…


Primeiro Presidente Republicano em Vide
Primeiro Presidente Republicano em Vide

Precisamente um mês após a Implantação da República em Portugal ocorreu em Vide o primeiro acto oficial do novo regime. Estávamos então no dia 5 de Novembro de 1910 quando, na escola primária do sexo masculino, se reuniu um grupo de cidadãos para dar cumprimento ao Alvará do Governo Civil da Guarda, de 21 de Outubro desse ano, que nomeava os novos órgãos administrativos da freguesia de Vide.
A transição do regime monárquico para a República parece ter sido pacífica em Vide, como se depreende dos documentos consultados, pois que, o anterior presidente da junta de paróquia, Reverendo Joaquim António dos Santos, foi convocado “para conferir a posse e exercício” à novel junta republicana.
Tal facto não representa a freguesia como um bastião republicano impregnado pela proximidade da sede do concelho, Seia, e pelo fervor político do conterrâneo, e figura destacada da 1.ª República, Dr. Afonso Costa. De facto houve quem, “por motivo de incompatibilidade justificada com o novo regime” se recusasse a tomar posse como membro da junta republicana, como foi o caso “do cidadão” José dos Santos Nobre Júnior.
O primeiro elenco teve como presidente o Professor Carlos Abranches Nobre sendo coadjuvado pelo secretário, cidadão José António Lopes Freire, e pelo tesoureiro, cidadão José João da Silva. Claro que, à boa maneira republicana, na acta de posse o presidente também se apresenta como “cidadão”.
Das decisões imediatas, tomadas pelo novo elenco administrativo, pouco se vislumbra das rupturas institucionais endémicas do republicanismo. Exceptuando a mudança do local das reuniões, da sacristia para a escola masculina… já o facto de o relógio da torre ficar à responsabilidade da junta republicana demonstra que se procurou ajudar a igreja, desobrigando a paróquia de pagar o “três mil réis anuais” ao responsável da máquina.
Esta primeira junta republicana teve um mandato curto tendo sido substituída, a 10 de Julho de 1911, por Alvará do Governo Civil datado de quatro do mesmo mês. Na verdade, não se tratou de uma nova “Comissão Republicana”, apenas se trocou o seu presidente que passou a ser João Augusto Brandão, de Baloquinhas, sendo acompanhado na nobre missão pelos anteriores secretário e tesoureiro.

O estado da “nação”…

Que poderemos então dizer sobre os aspectos económicos e sociais que acompanharam a comunidade de Vide nesta transição de regime?
Socorremo-nos da resposta dada a um ofício enviado, a 8 de Novembro de 1910, pelo “Presidente da Comissão Municipal Republicana de Seia”, o cidadão Artur Cabral, que questionava sobre os melhoramentos mais urgentes e necessários a realizar na freguesia de Vide.
A resposta, exemplarmente redigida e fundamentada pelo presidente, Professor Carlos Nobre, permite vislumbrar uma região onde tudo faltava e que se debatia com uma pobreza de natureza quase endémica. O que pudemos apurar – excepto no campo da assistência médica que traça uma panorâmica geral – reporta-se apenas à sede de freguesia não sendo, pois, difícil de imaginar, a realidade das restantes aldeias perdidas, literalmente, pelas serras da Estrela e do Açor.
Dos “melhoramentos materiais” mais urgentes para a freguesia destacam-se a falta de fontes públicas na aldeia, embora existissem duas nascentes que passavam por baixo das casas e currais com animais o que provocava a sua insalubridade, especialmente durante o inverno, quando as águas das chuvas privavam as pessoas de servir-se desses recursos. Valia nestes períodos as nascentes de particulares que, “por favor”, deixavam os habitantes utilizar as suas águas.
As acessibilidades, por cavalos ou carros de bois, razoáveis na época para os concelhos de Oliveira do Hospital e da Covilhã, não existiam para a sede do concelho de Seia. O caminho de ligação a esta vila só permitia a passagem a pé ou com uma “cavalgadura à rédea”, causando grande transtorno à população e entraves ao comércio com as vilas e aldeias do mesmo município.
Também havia várias ruas na aldeia que eram um “foco de infecção” durante o inverno por falta de calcetamento; a Rua da Estalagem; Rua do Forno; Rua do Bairro Alto; Travessa da Igreja; Rua do Ribeiro; Rua da Canada…
Mas havia outro melhoramento – “não material” – que a junta republicana considerava mais premente e que apresentava “à apreciação e ao vosso coração humanitário”. Tratava-se da vinda de um médico uma vez por semana, em dia certo, à sede de freguesia. Procurava-se assistência médica para 3000 “almas” distribuídas por 600 fogos que, por falta de meios para recorrer a um médico que não existia por perto, morriam, sem se conhecerem as causas, às mãos de curandeiros que, a troco de produtos da terra, tratavam como podiam, e sabiam, todas as maleitas da comunidade.
A precariedade económica e social era tão acentuada que no mesmo documento se escreve “actualmente, mesmo que um médico pudesse visitar no domicílio os doentes, a maioria das habitações não tem condições para receber tão necessária visita. Não há uma cadeira para se sentar nem tão pouco uma mesa para prescrever uma receita”.
Advinha-se que o final da Monarquia não representava perda alguma para as gentes da freguesia de Vide. A República por seu lado, mesmo que nada fizesse, representava a luz ao fundo do túnel, a esperança daqueles que por mais 30 anos esperaram por melhores condições de vida até que, fartos de uma miséria hereditária, partiram massivamente para outras paragens.

Sinais de esperança…

A 23 de Abril de 1911 discute-se, na reunião da Comissão Republicana de Vide, a expropriação de uma casa onde terminaria o primeiro troço da Estrada Portuguesa N.º 46, que ia ligar Galizes à Covilhã. No entanto esta junção só foi concluída no final da década de 1970 com a construção do troço Barriosa – Pedras Lavradas. A República trazia com ela a esperança da comunicação rodoviária ao resto do país. De tão reconhecidos deliberaram que nesse local, após a passagem da estrada, fosse construído o Largo da República.
No entanto estes indícios de mudança depressa esmoreceram e a freguesia voltou rapidamente ao seu lento e insípido desenvolvimento. Os melhoramentos não correspondiam aos anseios e necessidades da comunidade, e a sua demorada implantação desesperava os dirigentes. Prova disso mesmo foi a resposta da junta de freguesia ao pedido da Câmara Municipal de Seia, datado de 3 de Fevereiro de 1920, que procurava o consentimento para contrair um empréstimo de 20.000$00 para pagar a construção da rua de acesso ao novo Hospital da Vila. O executivo de Vide votou, por unanimidade, contra esta pretensão do edil senense. Como legitimação da sua postura alegaram o total abandono das freguesias da “serra”, como por exemplo Vide, Teixeira, Alvôco da Serra e Cabeça que, entre várias carências, nem um caminho tinham, onde passasse um carro de bois, de ligação à sede do concelho, que se revelava mais urgente para estas gentes.
Aparentemente a vigência da 1.ª Republica pouco mudou nas vidas dos habitantes desta região.
Foi já durante a 2.ª República, em Maio de 1932, que chegou a Vide uma significativa verba, atribuída pelo município para melhoramentos rurais, no valor de 5.000$00. De pouco valeu às muitas aldeias da freguesia, de facto, o centralismo municipal contagiou a Junta de Freguesia que gastou toda a verba numa única aldeia, precisamente, em Vide.

Curiosamente…

Após a Revolução de Abril de 1974 foi também um professor quem presidiu à primeira Junta de Freguesia de Vide democraticamente eleita. Falamos do Professor José Freire de Brito Figueiredo que dirigiu os destinos da autarquia até 1989.
Embora muito houvesse a fazer a verdade é que realidade económica e social de então era muito diferente da registada no longínquo 1910. Muitas escolas, acessibilidades melhoradas, saúde com médico residente, rede de fontes públicas consolidada…
No entanto a postura reivindicativa manteve-se a mesma, embora de contornos diferentes, a revolução reanimou o espírito de luta pelo desenvolvimento, que deve ser distintivo de quem se dedica à coisa pública.
A demografia marcava então a principal dicotomia entre os marcos históricos assinalados. O Professor Carlos Nobre trabalhava pressionado por um aumento populacional, que foi contínuo até à década de 1940. O Professor Brito Figueiredo lutava para tentar travar um declínio populacional que se verificava desde essa década e se mantém até ao presente.

Por João Orlindo Marques

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